Além das Facetas

Blog Alem das Facetas - Cpia

 

ALÉM DAS FACETAS é uma homenagem em forma de relatos que narra os passos e os feitos da professora Yvonne Primerano Mascarenhas no campo da ciência e do ensino superior. Ele surgiu a partir de indagações que me permiti fazer ao longo de muitos anos no Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), sobre a origem de nossa excelente infraestrutura de oficinas de apoio ao ensino e à pesquisa, a capacidade de superar problemas e inovar, a forte cooperação científica internacional, e assim por diante. Responder a estas e muitas outras perguntas levaram-me ao casal Mascarenhas – Sérgio e Yvonne.

Após a primeira conversa com os dois separadamente – a ideia inicial era registrar os feitos do casal - e uma análise detalhada dos passos que a mulher de um grande pesquisador havia percorrido para alcançar seu lugar ao Sol, decidi registrar os passos e os feitos de Yvonne. Havia alguma coisa na primeira conversa com ela que melevava a ouvir repetidamente as gravações. Depois de muito tempo lendo e relendo a transcrição das fitas, acabei por entender o que me chamou tanto a atenção: ela, como muitas mulheres desse país, tinha dupla jornada: a casa, os filhos e o trabalho. Nas palavras de Yvonne na primeira conversa “... quando eu cheguei fui estimulada a começar a fazer logo pesquisa, mas eu estava entretida com os meus filhos pequenos. Uma mulher não pode esquecer que tem criança de um ano, um ano e meio e dois anos. Então eu sobrevivi muito bem”.

Antes que o leitor passe ao parágrafo seguinte, quero fazer uma advertência: a biografia da pesquisadora Yvonne Primerano Mascarenhas que verás neste livro não foi escrita por um especialista, mas por quem julga de extrema relevância registrar e manter a memória da ciência brasileira. O que encontrará relatado dá uma mostra de como a ciência brasileira caminhou nos últimos 50-60 anos.

Para que se tenha uma idéia clara desses avanços, especialmente a partir de 1956, poderíamos citar muitos exemplos, mas das falas de Yvonne é possível visualizar o estágio das instituições de ensino e pesquisa - “... havia lá (USP São Carlos) um laboratório de física que nunca tinha sido usado. Os estrangeiros que haviam chegado primeiro o haviam comprado. Então, nós começamos tentando usar todos os componentes desse laboratório para o ensino” - como também em que situação se encontrava o estado de São Paulo – “... chegar a São Carlos naquele tempo não era fácil. A estrada asfaltada terminava na cidade de Rio Claro. Para continuar a viagem tinha que percorrer umlongo trecho de estrada de terra”.

“Além das Facetas” é quase uma transcrição dos vários depoimentos e conversas. Alguns poucos documentos foram consultados. As fotografias presentes foram escolhidas de muitas que Yvonne guarda com carinho. “Além das facetas” começou a ser preparado há muito tempo. Mais de oito anos se passaram desde a primeira conversa. O objetivo era finalizá-lo quando se completou 50 anos da chegada dos Mascarenhas a São Carlos, mas faltou-me tempo.

Para finalizar tenho que fazer alguns agradecimentos justificados, pois agradecer a todos seria inviável. Quero agradecer aos meus filhos André e Marina, que souberam compreender a minha ausência constante nesses muitos anos de IFSC.

Um agradecimento especial a minha esposa Lenecy Carmona Hernandes, que infelizmente não está mais presente entre nós. Ela também exercia dupla jornada de trabalho e soube compreender minha dedicação ao ensino e à pesquisa. Quantos passeios programados e não cumpridos!

Também quero agradecer algumas das pessoas que me auxiliaram nesse trabalho, transcrevendo as fitas, recuperando fotos e auxiliando na criação do blog. São elas: Lilian, Juliana, Amanda e Maiser. Quero agradecer ainda ao professor Luiz Nunes de Oliveira que me incentivou desde o início deste projeto. A todos vocês e aos não citados explicitamente, o meu muito obrigado!

A.C. Hernandes

por Guilherme Ferreira Fontes Leal

 O Prof. Antonio Carlos me pediu para adicionar algumas memórias e outras às de seu trabalho que merecidamente homenageia a Profa. Yvonne Primerano Mascarenhas. Como também sou do Rio, posso realmente adicionar algumas informações ao seu relato sobre a paulista Yvonne no Rio de Janeiro.

Morou na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, entre os postos 5 e 6 da ‘paralela’ Avenida Atlântica, num pequeno edifício cinza escuro em que, em baixo, havia uma loja de afamada rede de armazéns de qualidade, ‘Casas Gaio Marti’ (como criança não me acostumava com o Gaio, achava que devia ser, no máximo, Caio). Era um ponto de bonde, na direção de Ipanema. O Colégio Mello e Souza, em que estudou, era muito conhecido, mas não me lembro se ficava na própria Avenida Copacabana ou se numa perpendicular, talvez a Bolívar: é que havia um outro com o nome de Mallet Soares e eu os confundia um pouco. Sobre seu professor de Matemática, Julio César Mello e Souza, o Malba Tahan, era conhecido (acho que ainda o é), lembro-me especialmente do seu ‘O homem que calculava’. É interessante assinalar que as ‘Cestas de Natal’, que o tino do realmente exuberante Sr. Primerano (a quem só vim conhecer aqui em São Carlos) procurou popularizar em S.Paulo antes de sua ida para o Rio, chegaram aí com certo atraso, na década de 50, e tivemos lá em casa a nossa, à prestação. Yvonne cita que se preparou para o vestibular com os livros da Coleção F.T.D., sim, eu também. Até hoje, leio os livros do Irmão Mario Marciano, todos muito bons em Física Geral. Conheci mesmo a Yvonne, de estampa bastante expressiva, em 1952, já no Curso de Química da FNF, Faculdade Nacional de Filosofia, que funcionava na Avenida Presidente Antonio Carlos no. 40, sim presidente (!) de Minas Gerais, político importante da chamada Velha República. O prédio era o da antiga Casa da Itália, confiscado pelo governo durante a guerra. Ela já namorava o Sergio Mascarenhas, bem magro então, que, apesar de, como ela, aluno do Curso de Química, tinha muito interesse por Física e citava muito os livros do Frank, especialmente o de Mecânica. O Sergio incentivou-me muito, almoçávamos os três num pequeno restaurante que funcionava numa sobreloja de um bar, ao lado da Livraria Francesa, junto a FNF, uma sopa de legumes precedia a refeição. Fugíamos do bandejão do restaurante da FNF, barato mas de paladar imprevisível. 

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Yvonne, década de 40

 Sergio e Yvonne casaram-se (1954) na Igreja de Santa Terezinha que fica antes do Túnel Novo, pelo qual se alcança Copacabana-Leme vindo-se de Botafogo-Praia Vermelha. Na FNF, Sergio estava muito envolvido na pesquisa do Efeito Costa Ribeiro (ver 100 anos do Efeito Costa Ribeiro, Revista Brasileira de Ensino de Física, no.3, setembro 2000), ele e vários alunos da Química, inclusive o Prof. Edson Rodrigues (segundo seu testemunho, na maçaneta da porta de entrada da Faculdade havia a figura de um ‘feixe’, ‘fascio’ de Mussolini) que se associaram ao Prof. Armando Dias Tavares, então assistente do Prof. Costa Ribeiro. Faziam experiências no 6º. andar onde a Física e a Matemática funcionavam (o Prof. Plinio S. Rocha, muito conhecido professor de Mecânica Analítica e Física Matemática, também ficava ali). O humor do técnico Euclides, e sua disposição para o trabalho, não eram, porém, muito reprodutíveis e nem confiáveis.

Durante o meu curso, agora na Física, vim alguma vezes a São Carlos, em visita ao casal, com os filhos, Sergio Roberto e Yvoninha; Helena e Paulinho viriam depois. Numa das vezes, acho que com a presença do Prof. Laércio G. de Freitas, estabeleceu-se discussão sobre um problema de estática, que parecia simples mas que tinha suas sutilezas, em parte porque o significado do que se pedia precisava ser convenientemente quantificado (provavelmente problema - ou enigma, ver depois-, do Timoschenko ou do Wittenbauer). E por duas noites discutiu-se muito, mas eis que no terceiro dia Sergio anuncia que a

Yvonne, tinha conseguido justificar plenamente a resposta ao problema, como Édipo ao enigma da Esfinge (metade mulher, metade leão, que perguntava: quem é que começa com quatro, continua com dois e termina com três? Édipo respondeu, o homem, o três é do bastão na velhice). E, aparentemente, a Yvonne tinha sido a menos entusiasmada nas discussões. Esta sobriedade é um traço marcante de sua personalidade, que deve ter herdado de sua mãe, D. Luiza, sempre muito calma. Para completar a família, as irmãs Doracy e Zoraide, sempre muito unidas. Já membro do Departamento, não tive a oportunidade de interagir cientificamente com a Profa. Yvonne, certamente porque seus interesses não coincidiam com os meus, que, alías, demoraram a

amadurecer, o que só veio a acontecer na visita do Prof. Bernhard Gross em 1970, que trazia um problema – o da carga espacial em sólidos dielétricos -, vasto conhecimento do campo e toda a amabilidade no trato pessoal. Há também o problema da sofisticação própria da especialização, rapidamente ocultando aspectos mais palpáveis e discursivos, em benefício de sutis, necessárias, mas opacas técnicas de abordagem. A Profa. Yvonne teve um papel importante na modernização do Departamento, depois Instituto, no Programa de Pós-Graduação (o Sergio pronunciaria Post-Graduação), com incontáveis estudantes formados por ela e pelo competente grupo que congregou na sua área, sempre ativo na promoção de eventos atualizadores de conhecimentos e técnicas para seus membros e comunidade interessada. De uma posição natural de ‘vice’, como esposa, na qual, segundo o mote, ‘cavaleiro na garupa não puxa a rédea’, dispôs-se a aceitar a tarefa inerente ao Professor Titular no momento apropriado, quando conduzida à direção do Instituto. Um outro importante aspecto da atividade da Profa. Yvonne é sua permanente disposição em participar e mesmo presidir ações comunitárias, principalmente naquelas ligadas à educação e ciência, com empenho e dedicação. Gostaria de nesta oportunidade agradecer à Yvonne o seu trato amável dado a mim e a todo minha família. Aliás, para ser justo, o agradecimento deveria se estender a todos os membros, Sergio, Yvoninha, Paulinho e aos saudosos Sergio Roberto e Helena. Para terminar, vamos sobrepor um molho de futebol à Nelson Rodrigues. Quando Yvonne faz anos, dou-lhe dois parabéns, um a mais do que os merecidos. Pois é que em 21 de Julho os bons brasileiros também comemoram o aniversário de fundação do Fluminense F. C., o tricolor Pó de Arroz. Por minha insistência, fomos assistir no Maracanã a um Fluminense e Vasco, eu e Sergio que, embora de forma não

apaixonada, torcia pelo Vasco, isto em 1952. Saímos da Rua Mata-Cavalos na Tijuca (não é um nome digno de entrar nos romances e contos de Machado de Assis?), chegamos um pouco atrasados e de cadeira numerada, pagas por ele, vimos o primeiro tempo terminar enganador, 2 x 0 para o Vasco. E acabou 2 x 2, sendo um dos gols da reação do Fluminense, marcado por Telê, bem em frente às nossas cadeiras, nas nossas barbas. Acho que Barbosa era o goleiro do Vasco e Castilho do Flu. Ele, Telê, ‘o Fio de Esperança’, franzino, correndo

humilde e incansável por todo o campo, estreara no time principal em 1951, escalado por Zezé Moreira, vindo dos juvenis. Mas, diga-se de passagem, naquele tempo, torcer por clube de futebol com paixão ainda não era considerado atitude muito digna da classe média.

Liberou geral só depois de 58, com a primeira Copa do Mundo, quando aquele ‘preconceito’ não resistiu, e a classe média adquiriu o direito vital de tudo discutir sobre futebol“. 

Tudo começa em 21 de julho de 1931. Nesse dia nasceu na cidade de Pederneiras, Estado de São Paulo, a filha de Francisco Primerano – um senhor de fácil comunicação e muitas idéias - e de Luiza Lopes Primerano - a senhora que dava equilíbrio à ansiedade do marido em se envolver cada vez mais em novos projetos. Ela vai se chamar Yvonne, decidiu Luiza após escolha entre três nomes sugeridos pelo padrinho, o médico da família Doutor Pascoal. É a primeira de três filhas do casal.

Depois vieram Doracy e Zoraide. Quando nasceu Zoraide, Yvonne já fazia suas travessuras. 

 

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Yvonne com 3 anos (1934) 

francisco yvonne doracy Sr. Francisco com Doracy e Yvonne, à esquerda

 

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Luiza Lopes Primerano

 

A época não é das melhores financeiramente. Estamos numa fase crítica para a economia do país. O preço do café despencou e o pequeno Hotel de propriedade da família já não recebia tantos viajantes. Os negócios com café na região estavam absolutamente parados. O presidente Getúlio Vargas havia decidido queimar café para tentar elevar o preço, mas a medida não surtiu o efeito esperado. Com a situação

econômica difícil, o casal Primerano, como muitos outros da região, trocou Pederneiras pela cidade de São Paulo.

Uma nova vida iniciaria para os Primerano no bairro de Santana em São Paulo. A pequena Yvonne não teria uma infância fácil, apesar do grande esforço do pai. Ele começou uma carreira de viajante - "... viajava vendendo as mais variadas coisas. Começou com seguro saúde. Naquele tempo não se usava fazer seguro. Quando ele chegava a uma casa e dizia: Imagine se o senhor ficar doente, se o senhor morrer. Então, o colocavam para fora, porque achavam que havia ido para agourar a família".

 

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Família Primerano

 

 

Não ter sucesso em vender alguns seguros, não foi a única dificuldade reservada aos Primerano. Francisco viajou durante anos e anos como vendedor. Se não ganhou dinheiro, as viagens lhe renderam um conhecimento das características do povo e das cidades do Estado de São Paulo. Foi o suficiente para iniciar um novo projeto. Um novo negócio. 

 

A invenção da cesta de natal 

 

Meu pai era muito criativo. Foi ele que inventou esse negócio de cesta de natal. Ele conseguiu interagir com um português, que tinha um grande armazém em São Paulo. Eles fizeram um plano para vender cestas de natal, a prazo, para todo o Estado de São Paulo. Meu pai saiu vendendo as tais cestas. Vendeu muito. Agora, na hora de entregar, aconteceram as piores coisas. Eles tinham todo o material comprado para fazer as cestas, mas o volume de caminhões disponíveis não era muito grande e, além disso, as estradas não eram asfaltadas. Era aquela barreira, mês de dezembro, havia chovido muito. Eu sei que ele desistiu do negócio das cestas e nunca mais as vendeu".

 

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Sr. Francisco Primerano

 

 A pequena Yvonne está com 10 anos. Vida difícil. Já freqüentava a escola desde os 7 anos em São Paulo. A falta de sucesso nos negócios não tirava de Francisco o ideal da educação para os filhos. Resolveu mudar para a capital do país: a cidade do Rio de janeiro.

 

Foi trabalhar em uma companhia de seguros. Diferente da anterior em São Paulo, mas agora como gerente. Mal sabia Francisco que havia encontrado o porto seguro para a sua família. A vida a partir de então seria diferente para todos. Foi morar no melhor lugar da cidade - Copacabana.

 

No Rio de Janeiro, Yvonne foi matriculada no Colégio Mello e Souza - um conceituado colégio particular com uma história voltada para a educação. Hoje podemos dizer que esse foi o princípio de uma vida toda voltada à educação. "Esse colégio Mello e Souza realmente tinha muito bom conceito, pois era de uma família conhecida de educadores, inclusive o professor de matemática Júlio César de Mello e Souza, o famoso Malta Tahan. Você encontra os livros dele até hoje. Também havia outras pessoas da família

 

envolvidas com a linguagem esperanto, que nos imbuía da necessidade da comunicação internacional. Realmente eu tive uma ótima oportunidade de fazer o curso primário, o ginásio e o colegial (hoje seria o ensino fundamental e médio) no Mello e Souza. Mas foi tudo com muito sacrifício".

 

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Yvonne, Doracy e Zoraide

 

O empenho da família Primerano para ter os filhos educados num bom colégio fazia com que Francisco se envolvesse vez por outra com diferentes negócios para aumentar a renda da família, sempre vendendo alguma coisa e fazendo amizades que lhe seriam úteis no futuro, principalmente, a Yvonne.

A rotina da jovem Yvonne nesse período que antecedeu a universidade não foi diferente das outras meninas. Quando Yvonne entrou no colegial, separado em cursos cientifico e clássico, optou pelo curso clássico. "Eu gostava muito de letras, mas quando estava no segundo ano, achei que não teria muito futuro. Além disso, tive um excelente professor de química, o Professor Alber Ebert, e gostei muito de química orgânica. Fiquei impressionada com a sistemática evolução dos compostos orgânicos e suas funções. Eu e mais uma outra amiga, que também fazia o curso clássico, chamada Anna Maria Freire, resolvemos, então, fazer algo relacionado com ciências".

Yvonne concluiu o curso clássico em 1948, com baile de formatura e tudo o que era praxe à época. Decidiu realizar o exame vestibular em química. Para sanar

a deficiência em física, matemática e química, estudou sozinha para o vestibular.

 

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 Formatura de Yvonne: Colégio Mello e Souza 

 

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Baile de Formatura de Yvonne: Colégio Mello e Souza

 

O curso clássico era fortemente centrado em filosofia, Letras, latim e História e havia poucas aulas de ciências exatas. "Eu peguei os livros de uma coleção chamada FTD (editora FTD S.A.) e fui fazendo os exercícios, gradativamente, volume após volume. Quando cheguei ao fim, eu vi um anúncio de que a Faculdade de Filosofia tinha um curso pré-vestibular. Então, quando estava faltando um mês para o exame do vestibular, eu fui dar uma olhada para ver como era esse curso. O Sérgio (Professor Sérgio Mascarenhas, com quem Yvonne posteriormente casou-se e teve 4 filhos) dava aula nesse curso pré-vestibular, aula de química. Mas não me adiantou muito, pois já era começo de janeiro. Eu assisti a duas ou três aulas. O curso era dado por estudantes e não tinha muita regularidade. Eu achei que perdia tempo, viajando de ônibus de um lado para outro da cidade”.

O ingresso no curso de química da Faculdade Nacional de Filosofia da antiga Universidade do Brasil aconteceu logo após a conclusão do curso clássico, em 1949. A vida da família Primerano havia mudado. Os primeiros anos na universidade foram de muito estudo. A formação no curso clássico deixou um vazio nos conhecimentos de matemática. "O jeito foi pegar os livros, começar a estudar as propriedades do cálculo vetorial, os operadores, gradiente, divergente, e rotacional, tudo isso que a gente não sabia nem o que era, mas desde o começo os professores deram uma breve introdução, e começaram a usá-los”.

A dedicação e a persistência demonstrada nos anos anteriores a ingressar na universidade foram canalizadas para a vida universitária. O pequeno número de estudantes no curso levava os mais interessados a se envolverem com os poucos trabalhos de pesquisa existentes. Yvonne começou a acompanhar os alunos mais antigos em análises de propriedades de materiais dielétricos. No terceiro ano do curso de química, iniciou o curso de física, no período noturno, no Instituto Lafayette (atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ). A decisão de cursar física juntamente com química foi motivada pelo interesse em físico-química (Prof João Cristóvão Cardozo) e por influência do Professor Joaquim Costa Ribeiro, conhecido pela descoberta do efeito termodielétrico (ou efeito Costa Ribeiro): "... estudei em duas universidades diferentes. Eu freqüentava a maior parte das aulas noturnas, mas nem todas. Havia superposição de matéria e o curso noturno, como é natural, era menos intenso do que o curso da Faculdade Nacional. Como eu e o Sérgio estávamos acostumados com um ritmo de trabalho muito maior, o curso noturno foi relativamente fácil de levar. E a gente tinha muita curiosidade”.

A vida universitária na capital do país era agitada. Tudo acontecia no Rio de Janeiro. Havia também uma forte integração dos estudantes de diferentes áreas do conhecimento, o que permitia a realização de atividades políticas e culturais. “Era fácil participar de concertos e muitas outras coisas. Nós íamos ao cinema ou teatro e podíamos ficar até tarde fora de casa, quer dizer, naquele tempo ninguém ficava até quatro horas da manhã. Isso aí era fora de questão. Quando eu falo ficar até tarde é até umas onze horas”.

 

Uma única bolsa na graduação

 

"Quando eu cheguei ao terceiro ano, comecei a fazer também um curso aos sábados. Era o dia inteiro. E este curso me deu uma bolsa de estudos. A única bolsa que tive durante o tempo todo na universidade - o valor era de um salário mínimo”.

 

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Ganhar a bolsa de estudo foi uma dupla vitória para Yvonne, pois atuaria diretamente em química “... o curso era para fazer uma especialização num laboratório do Instituto Nacional de Óleos,Tintas e Vernizes pertencente ao Ministério da Agricultura. Era pertinho do Maracanã. Aprendi caracterizar e fazer o controle de qualidade desse tipo de material" - e poderia contribuir de modo mais substancial com o orçamento familiar – “... vivíamos com muita restrição, nunca houve abundância e nem luxo em casa, nada disso”. Aos recursos financeiros provenientes das aulas particulares de química, matemática e física, Yvonne acrescentava agora a bolsa de estudos. Mas, ainda não era um emprego “... com carteira assinada”.

Em 1953, quatro anos após o ingresso na universidade, Yvonne recebia o grau de bacharel em Química. A filha de Francisco e Luiza era orgulho para a família. A formatura, principalmente, a participação no tradicional baile de formatura, era um acontecimento à parte: “...minha mãe fez, ela mesma, meu vestido de baile e meu pai me surpreendeu com um lindo anel com um pequeno brilhante solitário".

 

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Formatura de Yvonne: bacharelado em Química

  

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Baile de Formatura: Yvonne e Sr. Francisco

 

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Yvonne e Sergio Mascarenhas

 

A primeira filha dos Primerano havia conseguido atingir o objetivo tão sonhado pelo pai. Havia também conseguido o primeiro emprego - "... eu comecei a dar aula no colégio Maria José Imperial, da união das Operárias de Jesus, com carteira assinada. Também consegui aulas de laboratório no colégio Mello e Souza. O mesmo em que havia estudado". Mas, Yvonne não parou.

 

Como estava cursando Física no período noturno, continuou também o curso de Química por mais um ano para obter o grau de Bacharel em Química. Em 1954 concluiu o Bacharelado em Química. Um ano depois, em 1955, chegava ao fim o curso de Bacharelado em Física. Em sete anos havia obtido os diplomas de Químico e Físico. Havia conseguido também a primeira nomeação - "... o professor Cardoso, que era catedrático de físico-química, me convidou para dar umas aulas no curso dele na Faculdade Nacional de Filosofia. Seria assistente ou coisa que o valha e sem proventos. Mas, ele falou com o diretor para fazer uma nomeação. Para eu não dar as aulas sem nada. Naquele tempo muita gente conseguia a nomeação e ficava honrado em dar aula”.

 

Nesse período já havia deixado a casa de Francisco e Luiza para construir uma nova vida. A primeira das três filhas de Francisco e Luiza não somente concluiu os estudos na universidade como também havia encontrado a pessoa com quem construiria sua família.

 

Yvonne casou em 26 de junho de 1954, na igreja de Santa Terezinha, na cidade do Rio de Janeiro. A família preparou uma festa. "O bolo de casamento, uma amiga da família, Elba Nery, foi lá em casa fazer, ficaram dois dias fazendo este bolo, trabalhão, ela gostava de fazer essas coisas”.

 

A lua de mel do casal na cidade de Salvador, Bahia, foi diferente. Os recursos financeiros disponíveis não permitiam essa extravagância. Mas, ficaram por quase um mês em Salvador hospedados numa espécie de mosteiro, posteriormente, transformado no Centro Regional do Instituto Nacional dos Estudos Pedagógicos - CRINEP.

 

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A lua de mel do casal na cidade de Salvador, Bahia, foi diferente. Os recursos financeiros disponíveis não permitiam essa extravagância. Mas, ficaram por quase um mês em Salvador hospedados numa espécie de mosteiro, posteriormente, transformado no Centro Regional do Instituto Nacional dos Estudos Pedagógicos - CRINEP.

 

"O Sérgio havia conversado com o Anísio Teixeira, que naquele tempo foi o grande mentor da educação brasileira, e este o convidou para ministrar um curso de capacitação em ciência para professoras do ensino primário em Salvador. Antes de irmos, escrevemos umas apostilas com experiências para uso com materiais muito simples, para não precisar de muitos recursos de laboratório. A ideia era dar aulas de conceitos básicos com experimentos para motivar as professoras. Foi praticamente um mês de aula e de lua de mel, no mesmo mosteiro”.

 

A volta à cidade do Rio de Janeiro representava o início da busca por uma posição em uma Universidade - era o desejo do jovem casal.

Uns meses antes de Yvonne ingressar na Universidade, em 1949, na cidade do Rio de Janeiro, um acontecimento político importante, que beneficiaria para sempre a cidade de São Carlos, havia ocorrido: a criação da Escola de Engenharia de São Carlos - a EESC – da Universidade de São Paulo. A Escola foi criada e subordinada à Universidade de São Paulo, por Lei Estadual no 161, de 24 de setembro de 1948. Este acontecimento, a carreira profissional escolhida por Yvonne e a USP vão se juntar oito anos depois, graças às características peculiares do pai de Yvonne. "Olha, eu tenho urna notícia que pode ser boa para vocês". Com essa frase o Sr. Francisco Primerano mudou a vida do casal recém formado na cidade do Rio de janeiro, que havia retornado a pouco de sua lua de mel, digamos, diferente. O casal era um poço de idéias e ideais - pronto para se por em prática.

Os Mascarenhas, como são conhecidos, deveriam decidir seu futuro e a oportunidade havia chegado. Mas, para se chegar a esse ponto um acontecimento inesperado, que, geralmente, acontece na vida das pessoas, surgiu durante uma viagem do Sr. Francisco à cidade de São Paulo. "Meu pai estava envolvido em remodelar a sede do Centro Paulista que existia no Rio de Janeiro - ficava na Praça Tiradentes, na capital do país onde havia outros centros regionais. Ele estava conversando com muita gente em São Paulo para fazer uma sede bonita, digna de São Paulo, mas não deu certo". No entanto, numa das viagens a São Paulo, o Sr. Francisco Primerano esteve na Universidade de São Paulo.

Procurava apoio para o Centro Paulista. No gabinete do Reitor, encontrou-se com o diretor da Escola de Engenharia de São Carlos, professor Theodoreto de Arruda Souto, que havia sido recém fundada.

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Professor Theodoreto de Arruda Souto

 

A característica de ser um homem falante foi essencial para conseguir a informação que seria a benção ao jovem casal Mascarenhas. O Dr. Souto comentou, então, da dificuldade em conseguir professores para São Carlos. "Meu pai falou: Professor de quê? O Dr. Souto respondeu: Professor de Física. Imagina o entusiasmo dele".

O arremate da conversa foi a de um pai preocupado com o futuro dos filhos. "Ele falou que tinha um genro e uma filha formados em Física e trabalhavam com o professor Costa Ribeiro e eram pessoas muito promissoras. Meu pai achava que nós éramos o máximo! E que ele poderia tomar informações nossas também com o professor Costa Ribeiro”.

A conversa adiantou-se com mais explicações e o convite para o casal vir trabalhar em São Carlos, na Escola de Engenharia, como professores em tempo integral e dedicação exclusiva. “Naquele tempo os professores não pagavam imposto de renda. Então, isso significava ainda um acréscimo de, hoje em dia, uns vinte por cento no salário. Para nós era muito bom, porque depois de formado para conseguir sobreviver, ter casa, ter filhos e tudo o mais, o professor tinha que trabalhar em vários lugares. E, naturalmente, para pesquisa sobrava pouco tempo”.

A oportunidade esperada havia chegado, mas longe, muito longe da cidade do Rio de Janeiro. O direito a dúvida estava semeado e agora era decidir o caminho a ser trilhado. O casal foi à procura da opinião dos mais experientes. O assistente do professor Costa Ribeiro, o doutor Armando Dias Tavares, foi o primeiro a ser consultado, pois ele já havia estado em São Carlos. "O Armando ministrou aula na Escola de Engenharia por um ano e viajava praticamente toda a semana. Era casado e a família havia permanecido no Rio de janeiro. Ele acabou não aguentando aquela vida, mas nos estimulou a vir conhecer a Escola”.

Todos os consultados pelo jovem casal julgavam a vinda para São Carlos uma aventura muito arriscada, mas ninguém colocou maiores objeções, pois poderia ser a grande oportunidade profissional. O professor Costa Ribeiro encaminhou uma carta de recomendação e fez contatos por telefone para poder melhor auxiliar o casal.

 

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Sociedade Dante Alighieri, atual Centro de Divulgação Científica e Cultural da USP. O local abrigou a primeira sede da Escola de Engenharia de São Carlos, da Universidade de São Paulo, para onde os jovens Mascarenhas viriam construir sua carreira profissional

"Meu Deus, o que é que eu vim fazer aqui?” A primeira impressão da cidade de São Carlos foi um misto de dúvida e medo. Yvonne com 25 anos de idade, o primeiro filho no colo (Sérgio Roberto Mascarenhas) e o segundo em seu ventre (grávida de três meses de Yvone Maria Mascarenhas), ao lado de sua mãe Luiza, prosseguiu descendo as escadarias da Estação Ferroviária de São Carlos com o objetivo de chegar à casa que seu marido havia arrumado alguns meses antes.

Estamos no ano de 1956. Mais precisamente no mês de fevereiro. O panorama da cidade era muito diferente do deixado no Rio de janeiro.

A São Carlos de 1956 era uma cidade do interior do estado de São Paulo diferente das outras. Tinha por volta de 40 mil habitantes na área urbana e 25 mil na área rural. A economia era baseada na agricultura e pecuária, mas tinha também um bom número de indústrias. Uma cidade pequena, mas com sinais de que seria uma cidade com forte presença de centros educacionais e de grandes indústrias. A Faculdade de Educação Física recebia estudantes de diferentes regiões do Estado de São Paulo. A Faber-Castell empregava um grande número de funcionários, a catedral estava quase pronta, a chamada ala antiga da Santa Casa de Misericórdia estava em funcionamento e o bonde trafegava da vila velha (atual vila Nery) até a Santa Casa.

A beleza do Rio de Janeiro e o jeito rústico da cidade do interior de São Paulo chocaram a mente e os olhos de Yvonne. "Chegar a São Carlos naquele tempo não era fácil. A estrada asfaltada terminava na cidade de Rio Claro. Para continuar a viagem tínhamos que percorrer um longo trecho de estrada de terra. A partir de Rio Claro tudo era terra. A opção, então, era viajar de trem”.

O cansaço da viagem de quase 24 horas acabou-se misturado com a sensação do desconhecido, da aventura. A viagem havia iniciado no dia anterior. Tomaram o trem noturno na Central do Brasil para chegar a São Paulo. Em São Paulo tiveram que caminhar para chegar a Estação da Luz. "Não se chegava na mesma estação. Era tudo muito difícil".

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São Carlos na década de 40

Na Estação da Luz tomaram um trem que saia por volta de duas horas da tarde em direção a São Carlos, com a previsão de chegar por volta das seis e meia. "Os trens eram muito confortáveis e a linha era muito bem mantida, então os horários eram perfeitos. Você tomava um trem aqui (cidade de São Carlos) e levava quatro horas e pouco para chegar a São Paulo. E aí nós viemos para São Carlos e nos estabelecemos aqui".

O professor Sérgio Mascarenhas aguardava a chegada da família, pois havia feito primeiro o longo trajeto do Rio de Janeiro a São Carlos. “Quando eu cheguei, o Sérgio já havia alugado uma casa. Era um sobrado - existe ainda hoje na praça XV de novembro, o da esquina é onde eu morava. Era um sobradinho até muito bom, era bem espaçoso. Nós queríamos ter espaço para receber nossos amigos, nossos parentes. Não era uma casa moderna como hoje, mas havia quatro quartos e um banheiro completo no andar de cima e no térreo, havia uma sala de jantar, uma saleta - que usávamos para visita - um outro cômodo esse fizemos de escritório, a cozinha e um porão. Quase que rapidamente mobiliamos a casa e pusemos uma mesa de pingue-pongue no porão para ter um pouco de lazer”.

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Yvonne com seu filho, na varanda de sua residência

 

A integração com a cidade

 "Ficamos logo sócios do São Carlos Clube - era um programa levar os filhos ao clube para brincarem. Também tinha a praça XV (Praça VX de Novembro próximo ao campus da USP) que é muito agradável e era defronte da nossa casa. Assim tínhamos aonde ir ao final da tarde com os filhos". No entanto, a falta da família e o isolamento dos amigos não foram as únicas dificuldades para o casal Mascarenhas em São Carlos.

“A nossa nomeação não saia. Não havia jeito de sair a tal nomeação. Éramos bem tratados, cordialidade, tudo, mas não saia á nomeação. Levou uns três meses para sair a do Sérgio, e a minha só saiu muito tempo depois".

Yvonne estava com a gravidez de Yvonne Maria avançada e desejava ter a nomeação antes do nascimento da filha para facilitar sua ida a São Paulo para a realização dos exames médicos obrigatórios. A filha do casal nasceu em 1956, no dia 10 de julho. Cinco dias depois, Yvonne teve que ir a São Paulo fazer os exames. "Tinha que fazer o tal exame médico para poder assumir. Eu havia planejado ir a São Paulo e voltar no mesmo dia, mas o médico achou que minha pressão estava muito baixa e exigiu que eu tirasse uma chapa do tórax. Tive que dormir em São Paulo para fazer o exame, somente no outro dia o médico achou que eu estava em condições para ser contratada".

Enfim, contratada! Em 25 de julho de 1956, a filha de Francisco e Luiza agora era professora da Universidade de São Paulo, a USP.

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Família Mascarenhas

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Yvonne em momento de lazer com o filho

 

Enfim, contratada! Em 25 de julho de 1956, a filha de Francisco e Luiza agora era professora da Universidade de São Paulo, a USP.

Agora, era dedicar-se ao trabalho e se integrar de vez à cidade do interior. "O problema maior foi nos sentirmos isolados, mas depois fomos fazendo amigos, fomos trazendo amigos do Rio de Janeiro. Recebíamos muitas visitas dos amigos e dos parentes. O pessoal vinha para cá e de certa maneira, eu acho que eles gostavam de vir. Eu senti que isso divertia. Eu não viajava muito porque com duas crianças não é fácil ficar se locomovendo. As viagens eram uma vez por ano para ir ao Rio de Janeiro”.

A integração com a cidade de São Carlos foi sendo consolidada à medida que os amigos vieram trabalhar na USP. "Vieram o Laércio (Laércio Gondim de Freitas, falecido em 05 de maio de 1999), o Milton (Milton Ferreira de Souza, aposentado em 27 de abril de 1985), o Rogério (Rogério Cantarino Trajano da Costa, aposentado em 30 de junho de 1998), o Lobo (Roberto Leal Lobo e Silva Filho, aposentado em 20 de outubro de 1993), o Guilherme (Guilherme Fontes Leal Ferreira, aposentado em 19 de fevereiro de 1992), no fim de poucos anos já havia um bom grupo de pessoas no Departamento, pelo menos uma meia dúzia de famílias formadas, que eram quase todos antigos amigos nossos além vários bons amigos da própria cidade ou de outros Departamentos da EESC. Foi isso que ajudou, ajudou bastante para a aceitação da cidade e do desafio".

Mais dificuldades apareceriam. No entanto, o entusiasmo para vencer também fortalecia os recém formados. Agora era seguir em frente com o desafio de fazer a carreira científica distante da cidade do Rio de Janeiro, a capital do país à época.